Faixas, cartazes, livros e folhetos foram apresentados em semáforos da cidade. Foto: Nathan Pereira

Um abraço, uma conversa, alguns minutos de atenção. Gestos simples, mas que ganham um peso diferente na terceira idade. No Rio de Janeiro, as denúncias de violência contra pessoas idosas recebidas pela ouvidoria do Ministério Público cresceram 24% entre 2024 e 2025, chegando a quase 3 mil registros, e nem toda violência deixa marca visível.


Foi para chamar a atenção para essa realidade que voluntários participaram, no último sábado (9), de uma ação do projeto Quebrando o Silêncio em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. As visitas aconteceram na Associação Monsenhor Severino e no Asilo Nossa Senhora do Carmo, duas instituições de longa permanência para idosos da cidade.

Durante a tarde, os residentes participaram de um chá da tarde, receberam doações arrecadadas especialmente para as instituições e desfrutaram de momentos de música, conversa e convivência.

Desbravadores também participaram das visitas e ações de distribuição de materiais nas ruas. Foto: Nathan Pereira

A iniciativa faz parte do Quebrando o Silêncio, campanha promovida anualmente pela Igreja Adventista do Sétimo Diaem oito países da América do Sul. Em 2026, o projeto tem como foco o cuidado e a proteção da pessoa idosa, ampliando a conscientização sobre prevenção, identificação de abusos e caminhos disponíveis para buscar ajuda.

Frases em cartazes, folhetos e faixas foram confeccionados para levar as pessoas a refletir sobre a terceira idade. Foto: Nathan Pereira

“Parece que eles estão recebendo alguém da família”

Recém-empossada, a presidente do Asilo do Carmo, Catarina Souza, viu na visita uma resposta a uma carência que conhece de perto. “A gente sente falta, mais do que tudo, de pessoas para vir dar um carinho a eles”, contou.

Segundo ela, muitos idosos sofrem com o abandono familiar. “Hoje vemos muitos idosos abandonados. Alguns passam os dias perguntando se o filho ou o neto vai visitar, e isso nunca acontece. A visita faz muita diferença para eles”, relatou.“Venham visitar. Mesmo que não precisem trazer nada, mas venham. Porque a companhia, para eles, é muito importante.”

A vice-presidente da instituição, Rosa Miranda, destacou a alegria proporcionada pela presença dos voluntários “É a primeira vez que vejo um grupo tão grande vindo aqui dessa forma. Mesmo sem doação, a presença, a conversa e o sorriso já transformam o dia deles”, comentou.

Para Jurema Mendes, residente do asilo, a tarde deixou uma marca simples de descrever e difícil de esquecer. “Não sei nem o que dizer o tanto que significou esse abraço, o carinho, as músicas. Essa tarde foi especial”, resumiu.

Um movimento que começou antes de agosto

Segundo Maria Eduarda Custódio, líder do Ministério da Mulher da Associação Rio-Fluminense (ARF), o movimento já está em curso há meses, embora o dia oficial de ênfase seja 22 de agosto. “Desde o começo do ano, as nossas iniciativas são realizadas para que todo o nosso território possa participar mais ativamente. Este ano, o desafio foi que as mulheres do Ministério da Mulher pudessem alcançar os asilos das cidades e dos distritos”, explicou.

“Em Campos dos Goytacazes, vivemos hoje um movimento simultâneo em dois dos maiores asilos da cidade, trazendo doações, alegria, carinho e cuidado, para que os idosos sintam que existem pessoas que se importam com eles de verdade.”

Ela destacou que o objetivo é mostrar aos idosos que eles não estão esquecidos. “Queremos que eles sintam que existem pessoas que realmente se importam com eles, e essa é a nossa missão.”

“A diferença começa com quem está do nosso lado”

Voluntária na ação e diretora de evangelismo no distrito de Parque Aurora, Sharlene Monteiro destacou o efeito de reunir várias lideranças em torno da mesma causa. “Quando a gente se une por uma causa maior como o Quebrando o Silêncio, está impactando a vida de outras pessoas”, afirmou.

“O Quebrando o Silêncio não é apenas uma campanha de agosto. É um movimento que nos ensina a fazer diferença na vida das pessoas todos os dias. Quando nos unimos por uma causa maior, conseguimos impactar muito mais vidas”, disse.

“A diferença começa agora, com alguém que está do nosso lado.” Para ela, a ação também é uma forma de mostrar, na prática, um lado da fé que vai além do discurso: “A igreja Adventista é evangelho, mas também é cuidado, é carinho, é amor em forma de ação, e hoje fizemos uma pequena demonstração disso.”

Cuidado que continua

Além das visitas, os voluntários deixaram um convite para que a comunidade participe mais ativamente da rotina das instituições, oferecendo não apenas recursos materiais, mas também tempo, escuta e presença.

Em um contexto em que os números de violência e abandono de idosos seguem crescendo, iniciativas como essa procuram lembrar que o enfrentamento desse problema passa também pela construção de uma rede de proteção baseada em respeito, atenção e valorização da pessoa idosa.

As ações realizadas em Campos dos Goytacazes marcam o início de uma série de mobilizações que serão desenvolvidas pela Associação Rio Fluminense dentro da campanha Quebrando o Silêncio 2026, reforçando a importância de romper o silêncio diante de qualquer forma de violência e promover uma cultura de cuidado e dignidade para os idosos.

A expectativa da liderança da ARF é que a mobilização em Campos dos Goytacazes se repita em outras cidades do território até 22 de agosto, quando a campanha Quebrando o Silêncio ganha as ruas em toda a América do Sul e o cuidado se torne uma prática constante na igreja e na comunidade.